Mostrar mensagens com a etiqueta .écrite créative.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta .écrite créative.. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

.seguir.



Seguir em frente, para a frente, sempre em frente.
Seguir sem parar, sem pensar, sem parar para pensar.
Seguir e não esquecer, seguir e não fugir, seguir e não deixar de procurar.
Seguir sem destino ou sem caminho, mas seguir sempre.
Sempre seguir, sempre só seguir.


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

.viagem.


A mão que abria aquela porta era uma mão de homem. Uma mão grande, de pele macia e unhas bonitas. Era a mão do meu avô que todas as tardes gostava de ir passear de autocarro. Sempre gostei de imaginar sítios fantásticos onde ele ia passear e nos quais coleccionava aventuras que só não me contava quando chegava porque eu era ainda muito pequena e não tinha idade para perceber as coisas dos crescidos. Sempre me recusei a acreditar que na verdade o autocarro que apanhava todas as tardes não mudava de número e que o seu passeio não mudava de rota.
Quando voltava para casa, saltava para os seus braços. Beijava-lhe o pescoço e deixava-me ficar no seu colo de sorriso colado porque sabia que o fumo dos cozinhados da minha avó, que marcava o seu lugar no fogão durante horas que sempre me pareceram dias, esse fumo escondia os segredos das histórias maravilhosas que o meu avô vivia nas suas tardes e que só eu as sabia à custa de tanto as fantasiar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

.tenório.

Tenório era um coleccionista por excelência. Gostava de coleccionar tudo, não lhe interessava o valor das coisas. O que interessava é que pertencessem a outras pessoas. Da sua colecção faziam parte pequenos papéis, anéis, cartas, isqueiros, colheres, fotografias, livros, canetas, cabelos, lenços, bilhetes, entre outros mil e um pertences. Recolhia-os em todo o lado, na casa de outras pessoas, na rua, no eléctrico, no dentista ou na praia. Todos os lugares tinham um potencial inimaginável. Sempre mantivera este seu amor secreto, assim devia ser um amor para ele. No secretismo não havia mal entendidos e assim seria sempre só ele o único a saber que o segredo da sua colecção era no fundo uma cleptomania crónica.
Todos os dias, quando acordava revia a sua colecção metodicamente. Era necessário ter atenção para que nada se estragasse e nada se perdesse. Mas um dia Tenório enfrentou aquilo que viria a tornar-se numa tragédia. Quando conferia o bem-estar dos seus pertences apropriados apercebeu-se que algo de errado se tinha passado com o lenço que recolhera há uns anos no Hotel Ritz. Quando encontrou aquele pedaço de tecido, os seus dedos descobriram três enormes rasgões. Alguém tinha violentado um dos seus bens mais preciosos e roubado a alma daquele lenço que agora não passava de um tecido inanimado.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

.a estranha.

Sempre fora assim. Calada e observadora. Gostava de passar horas sem dizer nada enquanto olhava as outras pessoas. Pensava nas vidas delas, nas pessoas a quem quereriam bem. De vez em quando, conseguia até imagina-las a fazer amor ou a morrer. Duas ideias de certo estranhas e opostas mas tão frequentes nos seus pensamentos. Mas preferia assim. De certa maneira, as vidas dos outros ocupavam-na para que não tivesse de pensar na sua própria. Na vida dos outros não havia precipício, não havia ócio, não havia fome. Havia só ela que as observava como quem sabe e gosta, ali ao pé de tanta gente. E foi sem pensar em si e no que os seus olhos ocultavam quando olhava os outros que percebeu. Afinal o que importa é fugir para não magoar e para não deixar magoar e depois voltar como se nada fosse.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

.onze.

Onze meses marcam este ano
Onze longos sonhos que imaginei.
Onze noites e onze dias,
Onze vezes adormeci e
Onze vezes acordei.
Onze foram as vezes que pensei em ti das
Onze vezes que de ti fugi.
E agora, nestes onze meses que este ano deixou passar,
Esqueço-te assim, onze vezes, sem pensar.

domingo, 9 de novembro de 2008

.manual de como (não) sofrer.

Para um melhor sofrimento não esteja sozinho. Use as pessoas. Fale muito e chore ainda mais. Partilhe os seus sintomas.

Saia à rua, aborde um estranho e fale-lhe abertamente do seu sofrimento. Deverá ser insistente e não permitir ao estranho qualquer hipótese de fuga. Seja cruel e julgue tudo aquilo que lhe parecer pertinente.

No final, aconselha-se um forte abraço ao estranho. Após cinco dias, o sofrimento deverá começar a atenuar e finalmente dissipar-se-á.

Se os sintomas persistirem ou se tiver a sensação que esta intervenção é muito fraca ou muito forte, consulte um novo estranho.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

.letra a letra.

Juntava as letras alheia a quais iam sendo escolhidas e à palavra que delas se ia adivinhando. Letra a letra os meus dedos juntaram o teu nome. De início a medo, incertos na razão daquela letra e na conclusão da palavra que ela ia desvendar. Depois, como que ansiosa procurava a próxima. Aquela que me aproximava cada vez mais de ti. De seguida, calma no confronto da última letra que terminaria o teu nome, completei-te. Juntei aquela última letra e lá estavas tu perante mim. Rasgado a letras na folha branca que chamava o teu nome.


quarta-feira, 15 de outubro de 2008

.recordações.

Recordo-me ainda de ti. Recordo-me do nosso amor esdrúxulo como gostava de lhe chamar. Dizias que não soava bem, preferias chamar-lhe miami. Parecia-te uma palavra mais simples como quem diz "olá".
Gostavas de um café forte de manhã quando acordavas, com aquele sorriso a rastejar. Beijavas-me, dizias "bom dia" e eu ficava para ali dispersa entre a tua saliva e o meu coração sangue vivo.

.houve um tempo.


Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre a margem do rio
que desenhava a distância entre mim e ti.