quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

.tenório.

Tenório era um coleccionista por excelência. Gostava de coleccionar tudo, não lhe interessava o valor das coisas. O que interessava é que pertencessem a outras pessoas. Da sua colecção faziam parte pequenos papéis, anéis, cartas, isqueiros, colheres, fotografias, livros, canetas, cabelos, lenços, bilhetes, entre outros mil e um pertences. Recolhia-os em todo o lado, na casa de outras pessoas, na rua, no eléctrico, no dentista ou na praia. Todos os lugares tinham um potencial inimaginável. Sempre mantivera este seu amor secreto, assim devia ser um amor para ele. No secretismo não havia mal entendidos e assim seria sempre só ele o único a saber que o segredo da sua colecção era no fundo uma cleptomania crónica.
Todos os dias, quando acordava revia a sua colecção metodicamente. Era necessário ter atenção para que nada se estragasse e nada se perdesse. Mas um dia Tenório enfrentou aquilo que viria a tornar-se numa tragédia. Quando conferia o bem-estar dos seus pertences apropriados apercebeu-se que algo de errado se tinha passado com o lenço que recolhera há uns anos no Hotel Ritz. Quando encontrou aquele pedaço de tecido, os seus dedos descobriram três enormes rasgões. Alguém tinha violentado um dos seus bens mais preciosos e roubado a alma daquele lenço que agora não passava de um tecido inanimado.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

.a estranha.

Sempre fora assim. Calada e observadora. Gostava de passar horas sem dizer nada enquanto olhava as outras pessoas. Pensava nas vidas delas, nas pessoas a quem quereriam bem. De vez em quando, conseguia até imagina-las a fazer amor ou a morrer. Duas ideias de certo estranhas e opostas mas tão frequentes nos seus pensamentos. Mas preferia assim. De certa maneira, as vidas dos outros ocupavam-na para que não tivesse de pensar na sua própria. Na vida dos outros não havia precipício, não havia ócio, não havia fome. Havia só ela que as observava como quem sabe e gosta, ali ao pé de tanta gente. E foi sem pensar em si e no que os seus olhos ocultavam quando olhava os outros que percebeu. Afinal o que importa é fugir para não magoar e para não deixar magoar e depois voltar como se nada fosse.

.juizo final.


Imagem daqui

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

.onze.

Onze meses marcam este ano
Onze longos sonhos que imaginei.
Onze noites e onze dias,
Onze vezes adormeci e
Onze vezes acordei.
Onze foram as vezes que pensei em ti das
Onze vezes que de ti fugi.
E agora, nestes onze meses que este ano deixou passar,
Esqueço-te assim, onze vezes, sem pensar.

domingo, 9 de novembro de 2008

.manual de como (não) sofrer.

Para um melhor sofrimento não esteja sozinho. Use as pessoas. Fale muito e chore ainda mais. Partilhe os seus sintomas.

Saia à rua, aborde um estranho e fale-lhe abertamente do seu sofrimento. Deverá ser insistente e não permitir ao estranho qualquer hipótese de fuga. Seja cruel e julgue tudo aquilo que lhe parecer pertinente.

No final, aconselha-se um forte abraço ao estranho. Após cinco dias, o sofrimento deverá começar a atenuar e finalmente dissipar-se-á.

Se os sintomas persistirem ou se tiver a sensação que esta intervenção é muito fraca ou muito forte, consulte um novo estranho.

.um domingo em serralves.

Juan Muñoz | Uma Retrospectiva | Fundação de Serralves

[obrigada pelo pic-nic!]

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

.letra a letra.

Juntava as letras alheia a quais iam sendo escolhidas e à palavra que delas se ia adivinhando. Letra a letra os meus dedos juntaram o teu nome. De início a medo, incertos na razão daquela letra e na conclusão da palavra que ela ia desvendar. Depois, como que ansiosa procurava a próxima. Aquela que me aproximava cada vez mais de ti. De seguida, calma no confronto da última letra que terminaria o teu nome, completei-te. Juntei aquela última letra e lá estavas tu perante mim. Rasgado a letras na folha branca que chamava o teu nome.


quinta-feira, 23 de outubro de 2008

sábado, 18 de outubro de 2008

.há coisas assim #4.

video
Filme | La Tigre e la Neve de Roberto Benigni
Música | You Can Never Hold Back Spring de Tom Waits

.amores que matam #2.

Eu estava calada. Os olhos bem abertos, impertinentes de pestanas raiadas de atenção e aquele brilho que não se distingue se de emoção se pelo fumo dos muitos cigarros que passeavam pelos meus dedos. Não consegui dizer nada. Opinar também sobre o amor como os outros a medo começavam a fazer. As palavras da Dona Rosa tinham-me invadido, dançavam agora na minha cabeça já atulhada de pensamentos.
Passaram-se uns minutos e falava-se agora de livros, de amor já que era a Dona Rosa quem liderava. Disse-me que gostava muito que lesse um livro cujo título não me recordo. Um qualquer título que se assemelhava a “os amores que matam”. Era escrito por uma psicóloga. Nunca gostei de livros escritos por psicólogos, sempre desconfiei das suas palavras demasiado embebidas num certo esgar de preciosismo de quem sabe mais que os outros. No entanto, naquele momento aquele pareceu-me o melhor livro para ler. Esbocei o meu melhor sorriso e amavelmente disse à Dona Rosa que o leria com todo o gosto.
Não cheguei a comprar o livro e a Dona Rosa não mo chegou a oferecer. Mas comigo ficou a certeza que também eu, quando tiver 80 anos vou querer ser assim. Ter um amor que mata para contar com a certeza que o soube amar.


quarta-feira, 15 de outubro de 2008

.recordações.

Recordo-me ainda de ti. Recordo-me do nosso amor esdrúxulo como gostava de lhe chamar. Dizias que não soava bem, preferias chamar-lhe miami. Parecia-te uma palavra mais simples como quem diz "olá".
Gostavas de um café forte de manhã quando acordavas, com aquele sorriso a rastejar. Beijavas-me, dizias "bom dia" e eu ficava para ali dispersa entre a tua saliva e o meu coração sangue vivo.

.houve um tempo.


Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre a margem do rio
que desenhava a distância entre mim e ti.


sexta-feira, 3 de outubro de 2008

.há coisas assim #3.


video

[Cover - Say Hello - Rosie Thomas & Sufjan Stevens]

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

.i will not pretend.


*[lyrics – bloody mother fucking asshole – Martha wainwright]

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

.ho voglia di te.


Bologna, Setembro de 2008

"Basta. Sono fuori. Dai ricordi. Dal passato. Ma sono anche fuori di testa. Prima o poi le chose che hai lasciato indietro ti raggiungono. E le cose più stupide, quando sei innamorato, te le ricordi come le più belle. Perché la loro semplicità non ha paragoni. E mi viene da gridare. In questo silenzio che fa male. Basta. Lascia stare. Metti tutto di nuovo a posto. Ecco. Chiudi. Doppia mandata. In fondo al cuore, lì dietro l'angolo. In quel giardino. Qualche fiore, un po' d'ombra e poi dolore. Mettili lì, ben nascosti, mi raccomando, dove non fanno male, dove nessuno li può vedere. Dove tu non li puoi vedere. Ecco. Di nuovo sotterrati. Ora va meglio. Molto meglio."

p.60. Ho voglia di te, Federico Moccia

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

.amores que matam #1.

Naquela manha o sol batia nas pálpebras e os olhos inundavam-se de um fervor de luz. O fumo dos cigarros ardia distraído enquanto a Dona Rosa ensinava o amor a uma plateia de corações ávidos de plenitude.
A Dona Rosa como carinhosamente lhe chamam é uma senhora argentina, vive sozinha num apartamento de Buenos Aires. Tem 80 anos e preenche o seu tempo livre a pensar. Gosta de pensar no que está por trás das coisas. Gosta especialmente de pensar no que está por trás do amor. Para ela o amor é como a electricidade. É omnipresente, sabemo-la e sentimo-la. Em cada divagação matinal e desgrenhada em frente a um frigorífico, em cada momento de alienação perante uma televisão ou em cada procura imediata de luz quando entramos numa casa escura. Tudo se move em torno deste cosmos eléctrico que tão insistentemente esquecemos. Não reconhecemos o valor da força motora da electricidade. Não reconhecemos do mesmo modo, a potência geradora do amor.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

sábado, 6 de setembro de 2008

.estação.


Esperar ou vir esperar
querer ou vir querer-te

vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

domingo, 17 de agosto de 2008

.m'importa di te.

One ear and...
by Yoshitomo Nara

"Seduti a terra sotto il davanzale dei lavatoi Maria mi fa tenere le mani sul suo petto. Sto un poco storto, scomodo, però le lascio lì. La frangia nera sulla fronte sua piglia un poco di ventariello fresco di ponente, le asciuga la faccia, ci guardiamo zitti per dei minuti sani. Non sapevo che è così bello guardare, guardarsi vicino. Stringo l'occhio buono, con l'altro vedo meno preciso però si sveglia il naso che tira a bordo l'odore sudato di Maria e l'amaro del legno del bumeràn che sta in braccio a me. Lei pure chiude un poco un occhio, poi fa a cambio con l'altro e ci guardiamo fitto e poi scappa da ridere per certe smorfie di cambiare luce agli occhi. Stasera ha detto: "M'importa di te". Pur'io ci tengo, ma non lo so dire così giusto e neanche posso rispondere: pur'io. Così mi sto zitto." (p.47)
Montedidio
Erri di Luca

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

.guarda-o.

Se por alguma estranha coincidência de telepatia sincronizada entre o meu coração que salta incansável à minha boca e o teu, que há muito não sei como bate - saberias as saudades que te tenho. A falta que fazes.
Que fazer com o que me deixaste? Enviar-te as cartas de volta? Devolver-tas porque as palavras que a tinta deixou escapar não fazem mais sentido?
Não, fico com as cartas. Porque um dia foram verdade.
Devolvo-te as tuas fotografias. Deixo-te um passarinho de origami. Guarda-o.

"Por estas e por outras estarás sempre eu contigo e tigo com mim."
O amor é fodido, Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

.post scriptum.

Perdi a conta. Já te senti de todas as maneiras - com paixão, com amor, com desejo, com amizade, com saudades, com ódio, com repulsa, com mágoa.
Lembro-me ainda da sensação de encaixe perfeito dos meus lábios no canto do teu olho com o teu nariz ou do mapa desenhado a beijos nas minhas costas. E de repente sinto um vazio, um aperto no coração. Não sei o que é e penso que é da tua amputação. Os amputados sentem sempre dor no membro ausente, aquele que não existe mais mas que lateja continuamente. Partilho esta dor amputada. Incapaz de encontrar-lhe a cura prometida, resolvo reler as tuas palavras. Umas quaisquer que tivessem feito sentido a uma dada altura. Aleatória, abro um email. Dizia assim no fim: "ps- (gosto de olhar-te nos olhos. mesmo que por vezes me sinta atrapalhado, eu sou assim. meio-parvo)".
Tens razão, és assim. Meio-parvo. É assim que te sinto, de todas as maneiras. Meio-parvo.

domingo, 27 de julho de 2008

.cosmic age.

Aviso: Esta imagem é um roubo deliberado e autorizado. Thanks coat! :)

Some people are born terribly old, wrinkled inside from the very first shout of life out of the womb. For them nothing will ever be spontaneous, everything seems to be strictly planned. They have a natural born lucidity. Their eyes will never have that child liquid gleam. We will always remember their old appearance, the spleen layer on their eyes and the grey hair. It feels as if they were never young and childish.
Yet, there are others whom old age will never hit. The number of teeth replaced or how thick their glasses are does not matter. There is no ultrasound or crutch that can determine their age. Those people will never be old for they are given a cosmic age. An age where they rush the blood on their veins, expand their arms and almost touch the limits of the skies. That age when their adrenaline accelerates their hearts and drops them into an aura of magnetism.

sábado, 26 de julho de 2008

.amor de origami #1.


"Well you know I have a love, a love for everyone I know"

I see a darkness, Bonnie 'Prince' Billy

quarta-feira, 23 de julho de 2008

.insustentabilidade.

(Serralves, Fevereiro de 2007,
uma fotografia da minha coisinha ruim)

A luz ténue dos candeeiros de rua eleva a noite. Desenha o vulto dos segredos suspirados a medo pelo vento às folhas das árvores. O cadeirão das flores repousa na varanda. Cumpre a sua função albergadora de pensamentos alheios. Eu fumo cigarros e olho para os meus pés vestidos pelos sapatos cinzentos. E penso, penso que já não sei fazer poemas. Os olhos já não se fecham e a mão já não deriva sozinha. Agora escrevo aquilo que não sei. Tenho os olhos abertos e a vertigem na boca.
A insustentabilidade assusta-me. A leveza desse amar perene consome-me. Faço-lhe as contas, divido-o pelo carnal e multiplico-o pelo platónico. O resultado é incerto, arredondado a uma estimativa pois que o amor não tem mesura. E as contas que fiz, guardei-as. Deixei-as perdidas, anotadas em versos de papel rasgado.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

.ladies and gentlemen we are floating in space.

...Take the pain away
Getting strong today
A giant step each day
All I want in life's
A little bit of love to take the pain away
Getting strong today
A giant step each day

I've been told
Only fools rush in
Only fools rush in
But I don't believe
I don't believe
I could still fall in love with you

I will love you 'til I die
And I will love you all the time
So please put your sweet hand in mine
And float in space
And drift in time
All my time until I die
We'll float in space just you and I

I think I'll love you today
I guess that's what you get
And I don't know where we are all going to

Life don't get stranger than this
But it is what it is
And I don't know where we are all going to

Everything happens today
And we're out here to stay
And I don't know where we are all going to

I think I'll love you today
I guess that's what you get
And I don't know where we are all going to

sábado, 19 de julho de 2008

.há coisas assim #1.

video

.ouvir alheio.

estava um calor ensurdecedor
doía-lhe a vagina de peito
faltava-lhe o oixigénio
achava que tinha um cancaro
foi fazer uma ocografia
e afinal era uma ursula no estogamo!

.desassossego.


"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida."

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

.bichos.




[zorba e jackie]

"Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabeça sustinha de pé. Por isso encostou-a ao chão, devagar. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. É claro que escusava de sonhar com um enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro de um caixão de galões amarelos, acompanhado pelo povo em peso…Isso era só para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma triste cova no quintal, debaixo da figueira lampa, o cemitério dos cães e dos gatos da casa. (...) E sempre se sentiria acompanhado uma vez por outra. Não que fizesse grande fica pé naquela amizade. Longe disso. A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que o acariciava como a uma criança. A velha toda a vida o pusera à distância. Dava-lhe o naco de broa (honra lhe seja feita), mas borrava a pintura feita logo a seguir: - Ala! E ele retirava-se cerimoniosamente para o ninho. Só a rapariga o aquecera ao colo quando pequeno, e, depois, pelos anos fora, o consentira ao lume, enroscado a seus pés, enquanto a neve, branca e fria, ia cobrindo o telhado. O velho também o apaparicava de tempos a tempos. Se a vida lhe corria e chegava dos bens de testa desenrugada, punha-lhe a manápula na cabeça, meigamente, e prometia-lhe a vinda do patrão novo. Porque o seu verdadeiro dono era o filho, um doutor, que morava muito longe. Só aparecia na terra nas férias do Natal. Mas nessa altura pertencia-lhe inteiramente. Os outros apenas o tratavam, sustentavam, para que o menino tivesse cão quando chegasse. Apesar disso, no íntimo, considerava-se propriedade dos três: da filha, do velho e da velha. Com eles compartilhara aqueles longos oito anos de existência. Com eles passara Invernos, Outonos e Primaveras, numa paz de família unida. Também estimava o outro, o fidalgo da cidade, evidentemente, mas amizades cerimoniosas não se davam com o seu feitio. Gostava era da voz cristalina da dona nova, da índole daimosa da patroa velha e da mão calejada do velhote.

- Tens o teu patrão aí não tarda, Nero…
O nome fora-lhe posto quando chegou. Antes disso, lá onde nascera, não tinha chamadoiro. Nesse tempo não passava de um pobre lapuz sem apelido, muito gordo, muito maluco, sempre agarrado à mama da mãe, que lhe lambia o pêlo e o reconduzia à quentura do ninho, entra os dentes macios, mal o via afastar-se. Pouco mais. Com dois meses apenas, fez então aquela viagem longa, angustiosa, nos braços duros de um portador. Mas à chegada teve logo o amigo acolhimento da patroa nova. Festas no lombo, leite, sopas de café. De tal maneira, que quase se esqueceu da teta doce onde até ali encontrava a bem-aventurança, e dos irmãos sôfregos e birrentos.
- Nero! Nero! Anda cá, meu palerma!
A princípio não percebeu. Mas foi reparando que o som vinha sempre acompanhado de broa, de caldo ou de um migalho de toucinho . E acabou por entender. Era Nero. E ficou senhor do nome, como da sua coleira. (...) Até missa ouvia aos domingos, coisa que nenhum cão fazia. Aninhava-se a seu lado, e ficava-se a ver o padre, de saias, fazer gestos e dizer coisas que nunca pôde entender. Foi a seguir a uma cerimónia dessas que o doutor chegou à terra. Todo muito bem vestido, todo lorde. Quando viu aquele senhor beijar a rapariga, atirou-lhe uma ladradela, por descargo de consciência. E o estranho, então, olhou-o atentamente, deu um estalo com os dedos, a puxar-lhe pelos brios, e teve um comentário:
- O demónio do cachorro é bem bonito!
Envaideceu-se todo. Mas o homem perdeu-se logo em perguntas à irmã, em cumprimentos a quem estava, sem reparar mais nele. E não teve outro remédio senão segui-los à distância, num ressentimento provisório. Ao chegar a casa, foi direito ao cortelho. E ali esteve uma boa hora à espera, a morder-se de ansiedade. Por fim, o recém-vindo chamou do fundo da sala:
- Nero! Venha cá!
Era a posse. Havia naquela voz um timbre especial que o fez estremecer. Pela primeira vez sentia que tinha realmente um dono. Contudo, lá arranjou forças para se deixar ficar enroscado na palha, salamurdo, a fingir que dormia…
Mas a ordem voltou logo a seguir, mais forte, mais imperativa:
- Nero!
Ergueu-se. Subiu os degraus da loja e, humilde e desconfiado apresentou-se."

[...]
Excerto de Cão Nero, do livro Bichos de Miguel Torga

quinta-feira, 17 de julho de 2008

.non ti muovere.



"Io rimasi a guardarla. Credo che quello fu il giorno più felice della nostra vita insieme, ma naturalmente non ce ne acorgemmo."

"Quei capelli che ho carezzato di notte chinato sul tuo piccolo viso stretto nel broncio del sonno, mentre nascevano tanti pensieri per te."

Margaret Mazzantini

.mysterious skin.

"And as we sat there listening to the carolers, I wanted to tell Brian it was over now and everything would be okay. But that was a lie, plus, I couldn't speak anyway. I wish there was some way for us to go back and undo the past. But there wasn't. There was nothing we could do. So I just stayed silent and trying to telepathically communicate... how sorry I was about what had happened. And I thought of all the grief and sadness... and fucked up suffering in the world... and it made me want to escape. I wished with all my heart that we could just... Ieave this world behind. Rise like two angels in the night and magically... disappear."

.perenne amare.

(a fotografia é uma roubalhice à Vanessa. Grazie mia piccola scimia!)

Forse la giovinezza è solo questo perenne amare i sensi e non pentirsi.



Sandro Penna

.griffin & sabine.

"Realizing how much I love you, I burst into tears. I have not told you a hundredth of what I hold in my heart for you. I know that your journey has reached a turning point and I want to give you strength. I have loved you in every manner that my imagination could contrive. I have wanted you so deeply that my body sang with pain and pleasure.You have been my obsession, my passion, my philosophers' stone of fantasy. You are my desire, my longing, my spirit. I love you unconditionally. Do you hear me? Do you see that I cherish you beyond question, that you have nothing to prove to me? You are making your journey to secure yourself. I am already tethered to your side.If you can love yourself as I love you there will be no dislocation - you will be whole. Bring yourself home to me and I will immerse you in every ounce of tenderness I possess."

.caixinha de música.

O sal entrenhado na pele, os mergulhos, os castelos na areia, o fato de banho amarelo, a pele queimada pelo sol, o brilhozinho nos olhos, os cabelos molhados, apanhar conchinhas, andar de baloiço no pôr-do-sol, o cheirinho dos cozinhados da avó, dormitar, andar de bicicleta, os arranhões nos joelhos, jogar à macaca, fazer pulseiras no pátio, jogar ao mata, apertar os cordões, brincar no labirinto, colar os cromos na caderneta, correr, cair, rir...Quero tudo isto. Fechar a minha caixinha de música e abri-la de novo. Pô-la a tocar do início - viver tudo outra vez como se fosse a primeira. Tenho saudades daquela inocência de criança, daquele êxtase fácil...Toma! Vá lá! Fazemos uma troca: dou-te os meus livros para estudar, as minhas contas para pagar, os meu cartões - multibanco, contribuinte, passe social, eleitor, dador de sangue, todos! -, o meu telemóvel, o meu computador, o meu ipod, o frigorífico e os armários despovoados, os cafezinhos aqui e ali, a faculdade, os amigos, as pessoas, a casa por limpar, as viagens de expresso, a mala rota, as correrias e os atrasos... leva tudo! Só por um bocadinho... Volto não tarda nada, prometo!Prometo que volto. Prometo que trago comigo aquele sabor de outrora.Vou só procurar a criança que há em mim e já volto...

domingo, 22 de junho de 2008

.i n c o n f e s s á v e l.

Egoísmo é a única palavra que me ocorre. Não gosto de estar sozinha, tu sabes disso. No entanto, quando estou com outras pessoas não passa senão de um escape, uma alternativa. É só mais uma oportunidade de poder usufruir de uma solidão mais recôndita.Sozinha entre as pessoas, sozinha no mundo. É assim que me sinto. Não consigo afastar este estado. Está cravado no meu corpo. Escavaram um buraco no meu coração enquanto dormia, enquanto sonhava em ser feliz, e enterraram a semente da solidão bem lá no fundo. Como faço para matá-la? Ou pelo menos fazê-la parar de crescer? Diz-me por favor.Eu não sou o que queria e tu não és o que eu esperava. Desculpa. Desculpa por te oferecer as minhas mágoas. Desculpa se insisti para que as aceitasses. Desculpa se me desiludi contigo. Desculpa se sou egoísta.Tenho o coração apertado, cheio de lágrimas que não consigo conter. A minha pele grita por ar. O sangue corre-me nas veias como se tivesse pressa, como se quisesse despachar uma tarefa que não lhe agrada. Tenho as mãos trémulas. Aquele sorriso fácil de quem está nervoso e não consegue suportar os olhares alheios. Os meus cabelos caiem como se fossem folhas outonais. De repente tenho cachos no cabelo à força de tanto os enrolar entre os dedos. Adormeço tarde e durmo mal. Sonho muito mas nunca sei o que sonho. De manhã quando me olho ao espelho os meus olhos estão baços. Como quando se olha além numa manhã de nevoeiro, sabes? Olhamos mas não vemos nada.Mantenho uma espécie de película ao meu redor. Como aqueles pisa-papéis que se agita e tudo fica inundado de neve ou então como as janelas embaciadas pela chuva. Olhamos mas não vemos o que lá está de verdade. Faço o meu papel na perfeição. Já disse tantas vezes as minhas falas que se tornou fácil. Faço de conta que está tudo bem, rio e sorrio muito, conto coisas engraçadas porque é bom quando todos se riem connosco e por momentos gostam muito de nós. De certo modo habituei-me a esta capa. Passou a ser difícil distinguir quando o que digo ou faço é verdadeiro ou só mais um disfarce. Viciei-me nestes disfarces. Tornei-me perita em dar cada vez mais veracidade a esta grande mentira, em abafar este grito que corta o ar. Um grito que vem de dentro - rompe as artérias, rasga a carne e arranca a pele.

.nos teus braços morreríamos.


"Se por algum desígnio voltar a esta terra amada gostava de ser uma árvore visitada por aves no Verão, por onde se passeassem os esquilos, onde escrevessem no casco pequenos nomes humanos apaixonados. Uma árvore de uma floresta do Norte onde no Inverno cai a neve e há aquele silêncio que tudo guarda. E que depois fosse cortada por um lenhador, pai de uma família grande e saudável, e que parte de mim fosse logo queimada, o seu calor cozendo a comida de todos e que com a melhor madeira se fizesse uma mesa onde alguém um dia escrevesse uma carta a alguém que estivesse longe para lhe dizer que a amava."


"Sam e Frank" in Nos teus braços morreríamos, Pedro Paixão